cronica linda de martha medeiros - para
IVAN EVALDO KUSSLER IVAN KUSSLER - de WALKIRIA
nunca imaginai um dia
Até alguns anos atrás, eu costumava dizer frases como “eu jamais vou fazer
isso” ou “nem morta eu faço aquilo”, limitando minhas possibilidades de
descoberta e emoção. Não é fácil libertar-se do manual de instruções que nos
autoimpomos. Às vezes, leva-se uma vida inteira, e nem assim conseguimos
viabilizar esse projeto. Por sorte, minha ficha caiu há tempo.
Começou quando iniciei um relacionamento com alguém completamente diferente
de mim, diferente a um ponto radical mesmo: ele, por si só, foi meu primeiro
“nunca imaginei um dia”. Feitos para ficarem a dois planetas de distância um do
outro. Mas o amor não respeita a lógica, e eu, que sempre me senti tão
confortável num mundo planejado, inaugurei a instabilidade emocional na minha
vida. Prendi a respiração e dei um belo mergulho.
A partir daí, comecei a fazer coisas que nunca havia feito. Mergulhar,
aliás, foi uma delas. Sempre respeitosa com o mar e chata para molhar os
cabelos, afundei em busca de tartarugas gigantes e peixes coloridos no mar de
Fernando de Noronha. Traumatizada com cavalos (por causa de um equino que quase
me levou ao chão quando eu tinha oito anos), participei da minha primeira
cavalgada depois dos 40, em São Francisco de Paula. Roqueira convicta e avessa
a pagode, assisti a um show do Zeca Pagodinho na Lapa. Para ver o Ronaldo
Fenômeno jogar ao vivo, me inflitrei na torcida do Olímpico num jogo entre
Grêmio e Corinthians, mesmo sendo colorada. Meu paladar deixou de ser monótono:
comecei a provar alimentos que nunca havia provado antes. E muitas outras
coisas vetadas por causa do “medo do ridículo” receberam alvará de soltura. O
ridículo deixou de existir na minha vida.
Não deixei de ser eu. Apenas abri o leque, me permitindo ser um “eu” mais
amplo. E sinto que é um caminho sem volta.
Um mês atrás participei de outro capítulo da série “Nunca imaginei um dia”.
Viajei numa excursão, eu que sempre rejeitei essa modalidade turística. Sigo
preferindo viajar a dois ou sozinha, mas foi uma experiência fascinante, ainda
mais que a viagem não tinha como destino um país do circuito Elizabeth Arden
(Paris-Londres-Nova York), mas um país africano, muçulmano e desértico. Aliás,
o deserto de Atacama, no Chile, será meu provável “nunca imaginei um dia” de
2010.
E agora cometi a loucura jamais pensada, a insanidade que nunca me permiti,
o ato que me faria merecer uma camisa-de-força: eu, que nunca me comovi com
bichos de estimação, adotei um gato de rua. Pode colocar a culpa no espírito
natalino: trouxe um bichano de três meses pra casa, surpreendendo minhas
filhas, que já haviam se acostumado com a ideia de ter uma mãe sem coração. E o
que mais me estarrece: estou apaixonada por ele.
Ainda há muitas experiências a conferir: fazer compras pela internet, andar
num balão, cozinhar dignamente, me tatuar, ler livros pelo kindle, viajar de
navio e mais umas 400 coisas que nunca imaginei fazer um dia, mas que já não
duvido. Pois tem essa também: deixei de ser tão cética.
Martha Medeiros